Por que Zé Neto e Cristiano não bombam como antes?

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Zé Neto e Cristiano, com a retomada dos shows pós pandemia, estão com agenda cheia, mas há indícios de que a carreira musical pode não estar tão bem assim

Zé Neto e Cristiano são uma dupla cuja carreira musical você, que acompanha e curte música sertaneja, certamente conhece. Provavelmente você já ouviu “Seu Polícia“, a música que mostrou a dupla para o Brasil e foi a mais tocada nas rádios do país em 2016. Creio que você conheça “Largado às Traças“, a segunda mais ouvida de 2018, perdendo apenas pra Gusttavo Lima, e que foi recentemente regravada pelo grande Renato Teixeira.

De 2018 até hoje passaram-se anos. Para o mundo da música e o contexto dos streamings de música e para a insaciável sede de novidades da galera da Internet, isso é quase uma eternidade. O mercado gira cada vez mais rápido e cabe ao artista a árdua missão de se manter em movimento e se reinventar. Talvez isso ajude a explicar porque lembramos bem dos hits mais antigos de Zé Neto e Cristiano, mas é possível que muitos não consigam mencionar grandes sucessos deles na atualidade. Não na mesma proporção.

Se for para falar em números alcançados pelas maiores duplas sertanejas da atualidade, a exemplo do que fizemos aqui com Henrique e Juliano, você pode ter a impressão de que Zé Neto e Cristiano seguem em alta. Ultrapassam a marca de 10.1 bilhões de visualizações no seu canal oficial do YouTube, tem 7,8 milhões de ouvintes mensais no Spotify e mais de 13 milhões de seguidores no Instagram. Isso é muita coisa, com toda certeza!

Muito importante pontuar que Zé Neto e Cristiano são uma dupla de talento e tem uma história significativa na música sertaneja. Fazem parte de um grupo de artistas importantes do segmento que começaram como compositores, enquanto a carreira como cantores não decolava. É o mesmo caso de Marília Mendonça e Maiara e Maraisa, por exemplo, de quem são muito amigos. Todos começaram na mesma época e sob a tutela do mesmo escritório, a Workshow. Só Henrique e Juliano gravaram oito músicas de Zé Neto e Cristiano, incluindo as ótimas “Eu Chamo Você Volta” e “Às Vezes“.

Assim sendo, e diante dos números já expostos aqui, não se trata de dizer que estão flopados, ou que nunca tiveram êxito. Longe disso! Trata-se de estabelecer um paralelo entre a realidade do momento atual e o que eles já conseguiram alcançar. Mesmo com números impressionantes nas redes sociais e plataformas de música, a dupla está, de certa forma, estagnada há pelo menos seis meses. A prova disso é que, no último mês, de acordo com o levantamento do Movimento Country, a dupla despencou 1200 posições no ranking de engajamento nas plataformas de streaming, de acordo com o portal Chartmetric, que faz o acompanhamento diário destes números.

O hiato é compreensível devido à pandemia, que pausou todo o setor de entretenimento e causou quedas enormes no faturamento dos artistas. Se até o ano passado estava tudo parado, a retomada das agendas de shows é quase como uma avalanche. Os artistas estão reorganizando datas perdidas em 2020 e 2021, reagendando apresentações para honrar os compromissos firmados previamente. Deste modo, quase todo artista de expressão no mercado está com a agenda cheia. Isso não significa, necessariamente, que esteja bombando.

No primeiro ano da pandemia, com o boom das lives, Zé Neto e Cristiano foram muito mencionados pela imprensa. Todavia, pelos motivos errados. Muito se debateu sobre a bebedeira desenfreada durante as lives, que honestamente me parece uma enorme falta de profissionalismo por parte de todos os artistas que incorreram nesse erro.

Fora isso, muito se falou no volume na sunga, no apoio ao Presidente Jair Bolsonaro, nas ameaças de morte, nos comentários homofóbicos, na doença no pulmão de Zé Neto que levou ao cancelamento de alguns shows bem no início da retomada (e que, posteriormente, o cantor disse em entrevista ser de fundo emocional). Falamos sobre tudo relacionado à dupla, menos sobre sua música, que é o que realmente importa. Quando a vida do artista está mais interessante do que a música que ele faz, algo está errado.

De uns tempos para cá, parece que Zé Neto e Cristiano preferiram ser influenciadores digitais, produzindo memes nas suas redes sociais, ou fazendo piadas e brincadeiras de gosto duvidoso, em vez de se dedicar à renovação artística do seu trabalho e à escolha de músicas para compor um excelente repertório. Inclusive, há que se ressaltar os maiores sucessos da dupla até hoje, que abriram as portas do sucesso para os sertanejos, como “Notificação Preferida“, “Largado às Traças”, “Mulher Maravilha” e “Bebida na Ferida“, para mencionar algumas, são as mais buscadas nas plataformas digitais até hoje.

A agenda está lotada, algumas faixas novas têm tido certo sucesso nas rádios, mas o público espera algo surpreendente de Zé Neto e Cristiano. Algo que os recoloque no caminho dos grandes nomes da música sertaneja no Brasil. Algo que lembre as maravilhosas “Te Amo”, “Eu Ligo Pra Você“, relembrando algumas mais antigas, ou até mesmo um modão doído no melhor estilo “Diz Pra Ela“.

Os rumores de recusa de um contrato milionário com um fundo de investimento, como aquele firmado por Gusttavo Lima e que causou furor no mercado sertanejo, são cortina de fumaça para mascarar o que, de fato, interessa. Zé Neto e Cristiano precisam se reinventar para voltar ao topo. Talvez a criação do selo próprio, ao estilo Cabaré, seja uma boa ideia e possa ajudar nesse caminho. No mais, concordo com Zé Neto em uma entrevista recente: eles têm potencial para ir muito mais além. Basta focar no que importa pra segurar o artista no auge: música boa e repertório relevante. Carisma e talento eles já tem.