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Morte de Mario Zan deixa órfã a música caipira

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Passagem de reportagem de TV no Pantanal, dentro de uma canoa do rio Paraguai, em Corumbá, na curva da chalana -enquanto falo, vê-se no outro banco da canoa um homem de óculos escuros.

  – Já ouvi dizer que as duas músicas mais bonitas do Pantanal, \”Chalana\” e \”Siriema do Mato Grosso\”, foram feitas por um italiano, cego, que não conhece o Pantanal. É verdade, Mario Zan?
   – Um pouco é verdade, um pouco não é. Sou italiano, vim de lá com 4 anos, mas -aí tira os óculos escuros- não sou cego. Nos tempos dos shows em circo no interior, nas estradas de terra, muita poeira, a gente precisava estar de óculos escuros, e isso levava a que me confundissem com outro sanfoneiro [Mario Gennari], este sim, cego, e que por isso andava com os olhos cobertos. Quanto a não conhecer o Pantanal…

   Estou conhecendo agora, por dentro. Antes, só tinha estado em algumas cidades.

   Além da \”Chalana\” e da \”Siriema\” -e do inesquecível hino do 4º Centenário de São Paulo-, Mario Zan é autor de \”Os Homens Não Devem Chorar\” (canção que fez grande sucesso no exterior, gravada também por Roberto Carlos com parte da letra em(espanhol), \”Orgulhoso\”,
   \”Iracema\” e centenas de outras músicas cantadas, além de algumas só de sanfona, entre elas os maiores \”limpa-banco\” de bailes de qualquer tipo (principalmente os de São João) e uma seqüência inteira de quadrilha.

   Mario Zan morreu na última quarta-feira, aos 86, e ainda trabalhando.

   Começou a tocar em bailes aos 12, de forma que atuou como artista durante 74 anos.

   Não é porém por longevidade que ele figura como um \”patriarca\” (entre outros 15) da música caipira no meu livro recém-lançado \”Musica Caipira -As 270 Maiores Modas de Todos os Tempos\”. Figura porque é bom.

   Caipira é um gênero musical com muito bagulho -como qualquer outro gênero musical (desde o erudito).

   Talvez pelo fato de muitos de seus criadores serem pessoas simples, no caipira o que é ruim acaba sendo escancaradamente ruim, de tal forma que a jornalista Leonor Silva diz que compositor de música caipira é que nem bunda de galinha. Não se sabe se dali vai sair um ovo, que é uma obra-prima, ou titica.

   Fui escrever o meu livro incentivado por Mario Zan, que me abasteceu de informações preciosas, para tentar separar os \”ovos\” -alguns de ouro- das titicas, chegando assim à seleção das \”270 Maiores Modas de Todos os Tempos\”.

   Além de muito ativo e trabalhador, Mario Zan sempre andou com grandes artistas -como Arlindo Pinto, Palmeira, Nhô Pai, Cacique- que foram alguns de seus parceiros.

   A penúltima vez que vi o \”patriarca\” Mario Zan foi para combinar foto da capa do livro, em que ele aparece ao lado de Tinoco, Mary e Marilene Galvão (Irmãs Galvão), Dino Franco e Paraíso -seis pessoas então em plena atividade na primeira linha da verdadeira música caipira de hoje.

   A última vez que o vi foi no lançamento do livro, numa livraria em São Paulo, poucos dias atrás.

   Mario estava um pouco desanimado, arranjou uma desculpa para não pegar a sanfona -o que não era de seu natural.
   – Doente, Mario? (ele estava um pouco ofegante) – Coisa à toa, passa logo.
   – Não me vai morrer, hein?
   – Só em último caso.

   JOSE HAMILTON RIBEIRO

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