Carta Aberta a do Fórum de Defesa Animal a Glória Perez e TV Globo Carta Aberta a Glória Perez e Rede Globo de Televisão

Tendo em vista as agressões que a teledramaturga Glória Perez tem sido vítima, devido à escolha do tema \’rodeios\’ para um dos núcleos da novela \”América\”, gostaríamos de tecer alguns comentários.

 

Somos uma congregação de cem pessoas físicas e jurídicas voltadas para a proteção animal.

Realizamos trabalho de conscientização popular sobre a posse responsável de animais de estimação, promovemos controle populacional, acompanhamento legislativo, contatos freqüentes com políticos com vistas a sua conscientização sobre a íntima relação entre a violência contra animais e contra humanos.

Os casos de flagrante prática de maus-tratos que requeiram uma ação agressiva e repressiva são obviamente denunciados à autoridade policial, já que constituem crime ambiental.

Não empregamos nem aprovamos quaisquer formas de agressão como técnica de protesto ou de convencimento, pois as consideramos antiéticas e, porque não dizer, burras.

No entanto, estamos sempre vigilantes, pois o Homo sapiens sapiens é de uma crueldade sem limites, principalmente quando tem sob seu domínio um ser mais fraco, uma criança, um idoso ou um animal. Nos 190.000 anos de evolução de nossa espécie, ainda não conseguimos dominar nossa agressividade. Thomas Hobbes já dizia que o homem é tão violento, que apenas um Leviatã com mãos de ferro e leis implacáveis pode salvá-lo de si próprio.

Ora, divulgar a crueldade numa sociedade já cruel há de fazer Thomas Hobbes tremer na sepultura. É o que a Rede Globo está por fazer.

No ano passado, quando tivemos as primeiras notícias de que Glória Perez havia escolhido entre outros o tema \’rodeio\’ em sua novela, nossa presidente, Sônia Fonseca, entrou em contato com ela, com a finalidade de dissuadi-la da escolha do assunto, pela crueldade intrínseca a essa prática, fato constatado e estudado por veterinários, inclusive da Universidade de São Paulo. Ou bem o bovino ou eqüino é aterrorizado e submetido a dor no condicionamento para corcovear, ou bem é submetido a um sedém com arames e ganchos até no próprio espetáculo.

Choques elétricos são rotineiros, assim como outras práticas que veremos adiante. Nenhum cavalo domado montado por peão experiente corcoveia. Isto não existe. Aliás, prova disso é que, sempre que um juiz proíbe o uso do sedém num rodeio, a empresa promotora recorre, afirmando que, sem o sedém, o rodeio se torna inviável.

Glória Perez pareceu aceitar uma reunião conosco, mas no final furtou-se a esse encontro.

Em 14 de agosto passado enviei a Glória Perez um e-mail, do qual transcrevo alguns trechos, para bem demonstrar o teor amigável de nosso contato com ela.

\’Os autores, atores, apresentadores e personagens da televisão são tão assíduos em nossas casas, que passamos a considerá-los velhos conhecidos. Isto talvez seja péssimo para uma celebridade, pois sempre há um atrevido desejando dirigir-lhe a palavra e tratá-la por \’você\’. É o meu caso.

Sua fortaleza de espírito e seu grande talento literário lhe criaram uma multidão de admiradores.Eu, entre eles. Você e Dias Gomes sem a menor dúvida produziram grandes marcos nessa forma literária contemporânea tão complexa que é a teledramaturgia.

Você, com sua criatividade e uma maneira tão sutil de abordar os temas mais espinhosos tem conseguido verdadeiros prodígios.Quando o mundo inteiro se chocou com a destruição das duas torres gêmeas em Nova York e o mundo islâmico estava por confundir-se com os terroristas que provocaram a grande tragédia, surge \’O Clone\’.

Confesso que quando vi os primeiros anúncios da novela naquele período tão assustador, pensei que daquela vez ia dar tudo errado, que uma história sobre o mundo islâmico iria provocar enorme rejeição. A novela foi um sucesso. O Islã foi descrito de maneira leve, simpática, bem humorada, tio Ali foi pouco a pouco explicando as regras e pilares da fé transmitidos por Maomé. O Brasil e todos os países que assistiram à novela aprenderam a entender um pouco melhor o Islã. Isto, sem falar da grande mensagem contra o consumo de drogas, mostrando a trajetória descendente da Mel, o desespero e a impotência de sua mãe e a liberação final da menina. Uma das cenas finais, em que Nazira sobe aos céus com seu tão esperado companheiro, no lombo daquele lindo cavalo branco, numa leve alusão à subida do profeta Maomé cavalgando seu Burak, foi de extremo bom gosto. Todos ficaram felizes: telespectadores cristãos, islâmicos, sheiks, mulás. Você conseguiu agradar a todos. O Islã lhe deve esta, Glória. Você, em bom português, deu nó em pingo d\’água\’.

Isto exige genialidade. Não é tarefa para qualquer autor.

É por isso que resolvi escrever-lhe sobre a novela \’América\’. Quando soube que entre outros temas os rodeios seriam abordados, fiquei desanimada. Essa atividade teve um enorme \’boom\’ no Brasil após a novela \’Ana Raio e Zé Trovão\’ (extinta Tv Manchete) e desde então muitos abusos têm sido cometidos com a proliferação de empresas de rodeio, verdadeiros caça-níqueis que grassam em torno das grandes cidades e que conseguimos com grande esforço reduzir. Esses \’picaretas\’ neurotizam os pobres animais, colocando arames e ganchos em seus arreios, para que corcoveiem cada vez que são montados.\’

O tempo passou, nossas tentativas de um encontro com Glória Perez sempre se frustraram. A esse tempo, o e-mail da escritora já teria caído \’na boca do povo\’ e os contatos com ela tornaram-se impossíveis, pois ela já estaria provavelmente recebendo mensagens desrespeitosas.

Em dezembro, consegui com um diretor da Rede Globo, cujo nome não declino nem sob tortura o endereço da Glória Perez e enviei a ela um DVD investigativo feito pela entidade norte-americana Shark (Showing Animals Respect and Kindness), que, mediante autorização, narramos em português, com cenas contundentes sobre todas as modalidades de rodeio.

Em 7 de janeiro passado, a presidente da World Society for the Protection of Animals (WSPA), Elizabeth McGregor, conseguiu reunir alguns diretores da emissora e outros membros da WSPA, a presidente do Fórum Nacional para a Proteção e Defesa Animal e outros na Rede Globo. Logo no início da reunião um dos diretores dirigiu-se aos protetores de forma muito agressiva, irado porque a data da reunião tinha vazado para a imprensa. Ameaçou cancelar a reunião. Os presentes ficaram muito espantados, pois o fato havia sido noticiado logo pelo jornal \”O Globo\”!

Glória Perez e Jayme Monjardim, que se tinham comprometido a comparecer, não apareceram. Nesta ocasião o Fórum Nacional entregou a cada diretor da Rede Globo o video elaborado em parceria com a entidade Shark e todos assistiram a ele durante a reunião. Os diretores ficaram chocados com o que viram e fizeram inúmeras exclamações de horror e de repulsa, pedindo para voltar as cenas diversas vezes.

No entanto, esses mesmos diretores vão divulgar esses mesmos atos que tanto asco lhes causaram.

O sr. Jayme Monjardim é useiro e vezeiro de promover maus-tratos a cavalos. Sua novela \’Ana Raio e Zé Trovão\’ provocou um estouro de companhias de rodeios que Brasil afora foram distribuindo choques elétricos, espancamentos, estacas no ânus, feridas provocadas pela cinta fortemente apertada na virilha dos bovinos e cavalos, rabos torcidos, puxados e até mordidos, feridas pelas fortes pancadas das esporas no flanco, pescoço e até no olho do animal, além da cabeça jogada contra o gradil. As provas de bezerros, que usam filhotes de 70 kg, animais de um mês de vida afastados da mãe e subnutridos, têm sistematicamente pescoço, bacia, membros ou coluna quebrados. Os garrotes também sofrem as mesmas fraturas. Levam choques e sofrem espancamento.

Jayme Monjardim liberou uma verdadeira onda de boçalidade contra esses pobres animais, que agora estava amainando. Pois vem ele novamente com outra novela sobre o mesmo tema. Isto, para não se falar da minissérie \’A Casa das Sete Mulheres\’, em que um cavalo recebe um tiro de seu dono em desespero, cambaleia e tomba. Escrevemos ao diretor, à Rede Globo, ao Programa \”Video Show\”, pedindo explicações sobre o making of daquela cena da morte do cavalo. Ela nos pareceu convincente demais (e cavalos não são tão bons atores). Nunca recebemos uma resposta. Ou o cavalo mereceria um Oscar de interpretação, ou o sr. Jayme Monjardim matou estupidamente um pobre cavalo para gravar uma cena de minissérie perfeitamente dispensável.

Como ele nunca nos respondeu, ficamos com a segunda hipótese.

Tomamos conhecimento de que Glória Perez tem recebido mensagens sádicas e violentas, notadamente em algumas comunidades orkut. Isto é lamentável, mas até previsível. Afinal, a internet é um grande meio de comunicação e de aproximação das pessoas, mas não podemos nos esquecer de que estamos trocando informações com todo o tipo de gente, que somos bombardeados por enxurradas de mentiras, simples bobagens, pornografia, sadismo, pedofilia. Até o canibal Armin Meiwes, hoje cumprindo pena na Alemanha, organizou uma comunidade antropófaga de 400 membros, entre os quais selecionou sua alma gêmea, que com ele manteve um encontro amoroso, tendo aceito ser morto, esquartejado e comido à luz de candelabros –tudo gravado em vídeo pelo próprio assassino. Isto é a internet. Quem levá-la ao pé da letra está sujeito a grandes decepções e até riscos.

Por isso não vamos admitir que Glória Perez afirme que \’os protetores de animais\’ a estão agredindo. As lideranças da proteção animal estão ligadas ao Fórum e recusamos peremptoriamente ser confundidos com indivíduos violentos e mal educados.

Em verdade, tal alegação vem ao encontro dos desejos da Rede Globo, que tem todo o interesse em jogar a sociedade contra o movimento de proteção animal que se transformou em incômodo lembrete de sua postura antiética. E, que melhor maneira existe de desmoralizar aqueles que lutam pela proteção animal em caráter voluntário, empregando na causa sua energia, seu conhecimento, do que desqualificando-os e satanizando-os, colocando-os num mesmo balaio com pessoas que agridem escondidas no anonimato?

Outra inverdade afirmou Glória Perez ao dizer, numa comunidade orkut, de que havia visitado inúmeros rodeios e que recebeu a informação de que jamais uma entidade zoófila teria se interessado por um rodeio. Se assim fosse, não haveria tantas decisões judiciais proibindo rodeios em vários municípios e nem seríamos tão odiados pelos promotores de rodeios. Se Glória Perez acreditou nessa história certamente contada por um dono de tropa, é muito ingênua…

Tentei postar mais de uma mensagem a Glória, expondo a minha opinião sobre a crueldade dos rodeios e sobre a infelicidade da escolha do tema. Minhas mensagens não foram ao ar. Reclamei com o coordenador, Alex, que me disse não analisar o teor das mensagens, haveria de ter ocorrido uma falha técnica… Desisti de postar mensagens ao verificar que a democracia naquela comunidade era artigo escasso.

Outro fato que demonstra a má-fé dos promotores de rodeios é um caso recente: o Dr. Lélio Braga Calhau, Promotor de Justiça de Governador Valladares, pediu ao Conselho Regional de Medicina Veterinária- SP um trabalho realizado por um veterinário que era então ao mesmo tempo diretor de um Departamento da Unesp-Jaboticabal e Membro Honorário do Clube \”Os Independentes\” de Barretos.

Esse estudo sobre os malefícios ou não do sedém aos bovinos foi encomendado pelos \”Independentes\”. Pois bem: em 4 de janeiro passado o promotor recebeu do CRMV-SP a seguinte resposta:

\’Em atendimento à sua solicitação através do e-mail de 23/12 p. p., protocolizado neste Regional sob nº. 34859/2004, lamentavelmente não temos cópias do trabalho, tendo em vista que este foi descartado por inúmeras falhas técnicas inconclusivas como material e método, bibliografia e análise estatística. Ass. prof. dr. Flávio Prada – Presidente da Comissão Editorial do CRMV-SP\’

Soubemos por fontes internas da UNESP-Jaboticabal que o mesmo clube \”Os Independentes\” já encomendou um novo estudo, dessa vez relacionado às provas usando bezerros. Isto porque o Fórum Nacional este ano passou a atacar o clube, por ter retomado essas provas crudelíssimas, que tinham sido suspensas.

O fato é que Glória Perez vestiu uma saia justíssima escolhendo tema tão impróprio.

É lamentável que alguém a quem a violência tenha imposto tanto sofrimento não se apiede do sofrimento imposto a seres indefesos, trancados num brete, sendo espancados, espicaçados, levados ao desespero, sem ter como fugir, sem entender por que sofrem tanto, só para o deleite de uma platéia histérica ávida de tombos, fraturas e outras boçalidades.

Ana Maria Pinheiro
Vice-presidente
Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal

Comments (0)
Add Comment