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\”Tristeza do Jeca\” é a melhor música caipira de todos os tempos

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\”Uma música especial, com letra bela, mas diferente do que tocam por aí\”, aprovou o doutor Nestor Seabra. Era uma tarde de 1918 e o elogio se dirigia ao autor da singela canção, Angelino de Oliveira, um dentista, mas que também vendia imóveis, liderava o trio Viguipi (violino, guitarra, piano) e, vez por outra, ainda assinava como escrivão de polícia de Botucatu.

  
   Já o Nestor Seabra –presidente do Clube 24 de Maio, um dos mais tradicionais da cidade– era quem havia encomendado a tal da \”música especial\” ao multifacetado Angelino.
  
   E foi no 24 de Maio, sob o olhar satisfeito do doutor presidente, que Angelino tocou e cantou \”Tristeza do Jeca\” pela primeira vez. \”Teve de bisar a música cinco vezes\”, conta o jornalista e pesquisador Ayrton Mugnaini Jr., autor da \”Enciclopédia das Músicas Sertanejas\” (Letras & Letras, 2001).
  
   Noventa anos depois, \”Tristeza do Jeca\” é a campeã de uma eleição feita, a pedido da Folha, por um grupo de 16 críticos, pesquisadores e compositores. Sem ser científica ou estatística, a enquete aponta alguns dos maiores clássicos da música caipira e ajuda qualquer interessado pelo gênero a montar um CD danado de bão.
  
   Tatu
  
   Inspirada no Jeca Tatu, personagem do livro \”Urupês\” –que Monteiro Lobato havia lançado naquele mesmo longínquo 1918–, \”Tristeza do Jeca\” deixou marcas profundas.
  
   \”O tom desencantado da letra deu, por um tempo, ideia de que música caipira tratasse só de morte, de tragédia, o que não é verdade\”, afirma José Hamilton Ribeiro, autor do livro \”Música Caipira – As 270 Maiores Modas de Todos os Tempos\” (ed. Globo, 2006).
  
   Já o jornalista Marcelo Tas, fã apaixonado do estilo sertanejo, recorre a lembranças interioranas para justificar seu voto: \”Que me desculpem Tonico e Tinoco, mas o melhor intérprete desta canção foi meu vô João. Nas festas da família lá em Ituverava, sempre chegava a hora dele cantar, cheio de orgulho e com uma verdade doída saindo do peito, que nasceu num ranchinho à beira-chão todo cheio de buraco onde a lua faz clarão. Todo mundo deixava o que estava fazendo para ir correndo ver o show. Um verdadeiro resumo da ópera caipira.\”
  
   Além deles, votaram os historiadores Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello (ambos autores de \”A Canção no Tempo\”, Editora 34, 1997), Fernando Faro (criador do programa \”Ensaio\”), Rosa Nepomuceno (autora de \”Música Caipira -Da Roça ao Rodeio\”, editora 34, 1999), Aloisio Milani (roteirista do \”Viola, Minha Viola\”), Assis Ângelo (autor do \”Dicionário Gonzagueano, de A a Z\”), Carlos Rennó (organizador de \”Gilberto Gil – Todas as Letras), Luís Antônio Giron (editor de cultura da revista \”Época\”) e Marcus Preto (colaborador da Ilustrada).
  
   Quatro artistas também participaram: Tinoco (da dupla com Tonico), Zezé di Camargo, Renato Teixeira e a dupla Milionário e José Rico, que votaram em dupla. As listas completas, com a ordem de votação de cada eleitor, e alguns comentários sobre cada canção, podem ser lidas em www.folha.com.br/090651.
  
   Tuia
  
   \”Tristeza do Jeca\” –assim como a maioria das 78 músicas citadas na votação– foi gravada e regravada por todo mundo, no meio sertanejo e fora dele. No filme \”2 Filhos de Francisco\” (2005) foi a vez de Maria Bethânia e Caetano Veloso.
  
   Mas a versão mais votada pelos especialistas consultados foi mesmo a de Tonico e Tinoco. \”Ela abria e fechava o Na Beira da Tuia, nosso programa na rádio Bandeirantes\”, lembra Tinoco, 88.
  
   \”Tuia? Ora, tuia é onde a gente guarda enxada, saco de milho, essas coisas… Mas esse povo da cidade não tem curtura nenhuma mermo…\”

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