Perfil – Irmãs Galvão

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Na estrada há 58 anos, As irmãs Galvão continuam alegrando as platéias Brasil afora, sem perder fôlego e a animação dos tempos em que se apresentavam nos circos

Mary na sanfona, Marilene com o violão e muito bom humor na bagagem. É assim há 58 anos, desde que as Irmãs Galvão, rebatizadas de As Galvão em 2000, descobriram seu talento para música e passaram a viajar pelas estradas do país. Durante mais de meio século de história, as aventuras dessa dupla caipira feminina se confundem com a evolução da música de raiz brasileira.

O pai alfaiate era baterista nas horas vagas. A mãe costureira soltava a voz em qualquer rodinha de seresta que se formava por perto. De tanto ouvir as modinhas da década de 40 no quintal de casa, as meninas começaram a sonhar com a vida de cantoras, mas não pensaram que tudo começaria tão cedo.

A mais velha, Mary, começou a cantar sozinha aos seis anos e logo estreou na rádio Clube de Paraguassu Paulista, cidade próxima a Sapezal, onde moravam. \”Só tirava a chupeta na hora de cantar\”, conta ela. Um ano depois, Marilene, com cinco anos, surpreendeu a família quando, sem saber nenhuma técnica de canto, começou a fazer a segunda voz em um tango argentino que a irmã ensaiava. \”A canção se chamava \’La Última Noche\’. Imagine que absurdo duas crianças cantando cheias de emoção sobre um assunto que não faziam idéia do que se tratava\”, comenta Mary, primeira voz e a mais falante da dupla que se formou naquele momento. Passaram a ir para a rádio juntas e se apresentavam como profissionais ainda crianças. Nunca passaram por programa de calouros, gabam-se as irmãs.
\”Nosso pai já era meio cigano, gostava de mudar sempre de cidade. Vivemos em diversos lugares, principalmente no interior de São Paulo, onde nascemos. Aliás, eu nasci em Ourinhos e a Marilene, em Palmital. Mas esses deslocamentos ficaram mais constantes em função da nossa carreira\”, diz Mary, que, além de Marilene, tinha mais três irmãos. A dupla conta que essas mudanças geográficas aconteciam com o objetivo maior de chegar à capital paulista.

Dali para frente, vieram participações em rádios locais, festas de cidades e bailes em clubes, acompanhadas por orquestra. \”A gente dormia durante o baile e só nos acordavam na hora de cantar\”, relembra Marilene. Sobre a vida dura na infância, elas não reclamam, mas lembram que em aniversários de colegas de escola, elas ficavam isoladas, sem brincar com as outras crianças pois já se achavam adultas para bagunçar.
\”Ficava louca para entrar no pega-pega, mas mantinha aquela pose de cantora profissional\”, frustra-se Mary.

Em 1952, elas chegaram a São Paulo incentivadas pelos artistas que encontravam nas estradas da vida, sendo as irmãs Castro, que eternizaram a canção \”Beijinho doce\” (mais tarde sucesso na voz das Galvão), as principais madrinhas da dupla mirim. Alguns anos antes, a música caipira começava a fazer sucesso com a popularização de duplas como Cascatinha e Inhana, Torres e Florêncio e as próprias Castro, a ponto de influenciar o estilo que As Galvão assumem até hoje: sertanejo, sim sinhô! \”Como viemos do interior, a gente se identificava com os causos caipiras, com as músicas que contavam uma historinha, cheias de melodias singelas. Lembravam o tempo em que vivíamos perto de fazendas de milho, algodão e amendoim e sempre tinham festas para comemorar as colheitas. Esses ritmos de raiz batem no coração do povo e é isso que interessa para nós enquanto artistas\”, afirma Marilene.
A relação entre as irmãs foi sempre muito tranqüila durante todo esse tempo. Ambas casaram com 24 anos e moram há mais de 40 cada uma em sua casa. Brigas, nem pensar. \’A receita para isso talvez seja o fato de morarmos longe. Mary, na zona norte, e eu na zona sul da capital paulista\’, brinca a segunda voz da dupla. Elas dizem que nunca pensaram em se separar e sim em desistir da música quando fizeram 50 anos de carreira. Achavam que não tinham mais o que fazer nesse mercado tão competitivo. Outras duplas femininas, como As Marcianas e As Mineirinhas, pediram para continuarem, pois elas continuam a ser uma inspiração para outras gerações de duplas femininas.Depois da década de 70, com o sucesso das feiras agropecuárias, o circo foi ficando meio de lado e as duplas sertanejas passaram a cantar para públicos muito maiores acompanhados até mesmo por bandas completas. Mas até 1981, As Galvão continuaram segurando sozinhas seus shows. Depois disso, decidiram seguir a tendência, incorporando outros músicos e, claro, como todo bom caipira, um violeiro. Os arranjos passaram a ser feitos pelo Mário Campanha, que também é o marido de Mary. Ou seja, é melhor que tudo fique em família mesmo.

Super Mico
As Galvão primam pela educação, vão a todas as missas, velórios, aniversários etc. Com a morte de um violeiro famoso, foram ao velório dele. Um detalhe: Marilene não gosta de olhar o rosto do morto. Ela entrou na sala do caixão e de longe começou a rezar e a chorar. No entanto, quando foram procurar a viúva para dar os pêsames, viram que estavam no velório errado. Foi um vexame.